HIM - Venus Doom
Introdução
Quando se fala na banda finlandesa de
Ville Valo é normal pensar-se em estruturas musicais simples, tendencialmente a virar para o
Rock
mais acessível (sobretudo a partir do já longínquo e genial primeiro
álbum). Não que seja um facto totalmente negativo (a própria natureza
da banda assim determina este aspecto), mas a verdade é que do ponto de
vista musical e se quisermos técnico,
HIM não era, de todo, uma
banda com grande complexidade (não que isto signifique que os músicos
eram insatisfatórios a este nível). Esta ideia saiu reforçada com o
lançamento de
Dark Light (anterior álbum da banda, de 2005), um trabalho nitidamente mais acessível e
Pop, mesmo tendo em conta os anteriores trabalhos da banda e o sucesso que alcançaram.
Logo
quando saíram as primeiras informações sobre o álbum, a banda apontava
para uma direcção mais pesada e ambiciosa do ponto de vista musical,
apenas continuando liricamente a linha poética e alegórica que se
encontra presente desde
Love Metal. A opção pelos mesmos produtores (
Tim Palmer e
Hiili Hiilesmaa,
este último o mesmo que produziu o primeiro álbum da banda) desse mesmo
trabalho (datado de 2003), indicava que iria ser um trabalho mais
virado para as guitarras e sons mais pesados do que, pelo menos, o
anterior.
Estas indicações confirmam-se na totalidade. Se
Dark Light foi uma grande mudança no som de
HIM,
Venus Doom
também o é, mas numa direcção completamente oposta. Os factores que
tornam o som imediatamente associável à banda, estão presentes
(principalmente a voz), mas há vários elementos novos a qualquer álbum
que a banda tenha feito e logo à partida este facto torna o álbum
bastante interessante.
Alinhamento01 - Venus Doom
02 - Love In Cold Blood
03 - Passion's Killing Floor
04 - Kiss Of Dawn
05 - Sleepwalking Past Hope
06 - Dead Lover's Lane
07 - Song Or Suicide
08 - Bleed Well
09 - Cyanide Sun
Ano 2007
Editora Sire Records
Faixa Favorita 05 - Sleepwalking Past Hope
Género Gothic Rock
País Finlândia
BandaEmerson Burton (Janne Puurtinen) - Teclado
Gas Lipstick (Mika Karppinen) - Bateria
Linde (Mikko Lindström) - Guitarra
Migé Amour (Mikke Paananen) - Baixo
Ville Valo - Voz

Review
O som de um isqueiro e de seguida um suspiro...
É assim que
Ville Valo
inicia o álbum, o sexto da banda: em tom catártico. É bem compreensível
que assim o seja, após vários acontecimentos traumáticos com o
vocalista da banda desde o lançamento de
Dark Light no fim de
2005. Os detalhes sobre os mesmos são irrelevantes, mas o impacto que
estes tiveram na banda são importantes (como um todo e não como
acontecimentos isolados) e ajudam a perceber a toada reinventiva da
essência da própria banda que
Venus Doom toma.
O que se
nota logo à partida no álbum é uma vontade experimental enorme. Seja
através das texturas musicais criadas pelas guitarras, as partes
instrumentais muito ao jeito de
Black Sabbath (influência
confessa da banda), as peculiares intromissões do baixo ou ainda as
letras, cada vez mais complexas e literárias (uma clara mudança desde
os primeiros tempos da banda, onde o amor trágico surgia retratado de
forma bem mais directa e simples), a verdade é que todo o álbum é
envolto numa atmosfera bastante densa e que tem várias incursões a
géneros que a banda nunca explorara antes.
Concretizando, temos
um claro piscar de olho a algumas ideias mais progressivas, facto até
aqui completamente inédito e corporiza-se sobretudo na não utilização
da habitual composição, "verso-refrão-verso-refrão", bem como alguns
arranjos que fazem lembrar o estilo. As próprias opções a nível da
duração das músicas reflectem algumas influências do estilo.
É ainda possível distinguir alguns elementos bem
Doom
(este facto é uma das mais surpreendentes revelações de todo o álbum e
está bem presente em todo o trabalho) e que tornam o álbum soturno,
negro e com uma áurea profunda de melancolia. A música não é,
obviamente, tão arrastada ou pesada como a praticada nas bandas mais
pesadas do estilo, mas a simbiose suave das características principais
do
Doom (o refrão neste aspecto é bem literal) com o som mais "rockeiro" da banda, é uma das principais características dos
HIM neste álbum.
Ainda neste campo,
Black Sabbath
surge como influência óbvia. Muitos riffs têm essa influência
claramente destacada e os próprios momentos instrumentais que criam a
atmosfera negra do álbum são remanescentes da banda de
Tony Iommi.
A guitarra assume-se como o motor desta evolução ocorrida em
Venus Doom comparativamente com os álbuns anteriores.
Linde
é um excelente guitarrista, que sempre deu à banda um toque único, mas
nunca terá tido uma performance tão central num álbum. Se é certo que
uma das principais marcas de
HIM era a distorção muito própria dos primeiros trabalhos e esta desapareceu... mais certo ainda é que
Linde
tem um papel multi-facetado e essencial para a definição das principais
ideias do álbum, bem como para os objectivos da banda nesta fase.
Os
riffs sujos e bastante "sabbathianos" são a nota dominante no álbum, a
par com os inúmeros solos que todas as músicas sem excepção apresentam.
Este foi de resto, um caminho pelo qual a banda explicitamente optou,
isto é, dar mais destaque e tempo à guitarra nesta proposta.
O
trabalho de guitarra apresenta-se assim como um dos principais pontos
de interesse do álbum. Muito variado, pesado, como uma distorção
diferente da usada antigamente mas ainda assim distinta da maioria do
que se faz actualmente, com vibrantes passagens em várias músicas entre
muitos outros atractivos que se vão descobrindo a cada audição, pois os
pormenores com que
Linde vai polvilhando o álbum são muitos e variados.
Instrumentalmente,
outro dos factores que se saúda é o regresso do baixo a um papel de
relevo num trabalho da banda. Depois de alguns álbuns relegado para
segundo plano,
Migé volta a apresentar-se como um elemento realmente importante na construção da atmosfera de um álbum de
HIM, tal como acontecia nos tempos de
Razorblade Romance,
não se limitando a "encher". Em consonância com a guitarra, o baixo
assume um papel importante para a atmosfera densa e profunda que todo o
álbum tem, através de riffs fortes e demarcados. Alguns dos melhores
momentos do álbum são quando o baixo e a guitarra como que se
interligaram e formam um par sonoro atmosférico e negro que em muito
beneficia o sentimento geral de
Venus Doom.
A bateria de
Gas
encontra-se numa toada semelhante a tudo o resto, com diversas
variações de estilo em todo o álbum. Esta versatilidade assenta bem a
Gas que é um vocalista bastante completo e cheio de ideias musicalmente distintas (é, por exemplo, baterista numa banda de
Grindcore), tal como provam os momentos de espantoso relevo e exoticidade (a percussão em
Sleepwalking Past Hope é um destes momentos).
Os teclados por outro lado, estão menos presentes do que em
Dark Light,
não deixando ainda assim, de dar um sentimento épico e melancólico ao
trabalho, sobretudo nos momentos onde os instrumentos assumem uma
posição privilegiada em relação à voz.
Falando nesta mesma voz, este é sempre um dos principais factores de destaque em álbuns de
HIM e sobretudo para os fãs da banda. A voz de
Valo
apresenta uma expressividade e vulnerabilidade que sempre foram muito
apreciadas pelos fãs e por outro lado, criticadas por alguns
detractores da banda (embora a maioria das críticas neste campo sejam
absurdas demais para uma menção séria).
Em
Venus Doom,
Ville Valo
exibe-se mais maduro e ciente das suas capacidades vocais, variando
entre registos mais agudos e graves, com especial destaque para estes
últimos, que sempre foram um dos pontos fortes do vocalista de
HIM.
De resto, a voz acompanha inteiramente toda a temática lírica do álbum.
A dualidade entre o amor e a tragédia é analogamente representada pela
voz ora mais suave, ora mais soturna de
Valo.
Liricamente, o álbum apresenta-se como um dos mais ricos da banda, com a poesia fantasmagórica, mas romântica de
Valo,
num estilo muito literário e alegórico, sempre tendo o amor trágico
como pano de fundo. De resto, o álbum tem de alguma forma um conceito
comum a algumas músicas, conceito esse que se prende com uma paixão com
o fim trágico no clímax do álbum,
Sleepwalking Past Hope.
De facto, as variações entre momentos mais habituais da banda e devaneios "à lá"
Doom que estão particularmente presentes em
Venus Doom ou
Passion's Killing Floor são de resto uma simbiose à qual poderíamos de forma muito redutora chamar
Doom Rock e que representa todos os sentimentos que a banda quis por no álbum. A última música do álbum,
Cyanide Sun é o exemplo perfeito deste contraste entre peso e delicadeza, tragédia e beleza.
Até a música escolhida para o single,
Kiss Of Dawn (música dedicada a um amigo da banda que faleceu pouco depois de finalizadas as gravações de
Dark Light)
tem na sua versão álbum um momento final muito mais exótico que o
habitual na banda, com os teclados a envolverem a música num misto de
mistério e erotismo.
Todas as músicas são de resto bem mais pensadas, tendo o álbum menos faixas que o habitual (apenas nove na edição normal) em
HIM
precisamente para evitar que houvessem músicas a mais o que se
materializou em mais faixas de grande qualidade como é o caso da mais
acelerada
Love In Cold Blood, de um momento muito espiritual em
Dead Lover's Lane ou
Bleed Well num tom mais
Pop e alegre que acaba por ser distinto do resto, mas encaixar-se muito bem no álbum.
Todo o álbum é contrastante: se por um lado temos o peculiar acústico
Song Or Suicide com pouco mais de um minuto muito caseiro e introspectivo, temos por outro a opus do álbum,
Sleepwalking Past Hope que simboliza tudo o que
Venus Doom
tenta demonstrar e fá-lo de forma brilhante. A mais longa faixa que a
banda produziu até hoje, com mais de dez minutos de duração, é uma
épica e negra viagem por um mundo onde várias emoções se cruzam de
forma contagiante. Com momentos mais calmos e tristes onde o teclado
vai dando um sentimento melancólico à música ou com momentos onde os
solos de guitarra dão uma vibração fantasmagórica ao tema, tudo está
perfeitamente interligado e redunda numa mensagem desolada, no momento
mais pessoal e desolador do álbum. Se necessário fosse resumir o álbum
num simples minuto seria o meio de
Sleepwalking Past Hope onde a estrofe abaixo citada está inserida, seria o ideal:
I gave up long ago
Painting love with crimson flow
Ran out of blood and hope
So I paint you no moreSimplesmente arrepiante, uma das melhores músicas de
HIM em muito tempo.
Quase no fim deixo uma pequena consideração. Este álbum foi "publicitado" como o mais pesado de
HIM.
Será o mais variado, talvez o mais bem conseguido musicalmente e o mais
ambicioso, mas não concordo com o facto de ser o mais pesado. Nesse
campo, a estreia da banda com
Greatest Lovesongs Vol.666 (que permanece o meu favorito) tem um ambiente que puxa muito mais para o
Gothic Metal, factores que se foram transformando ao longo da carreira da banda, inclusive em
Venus Doom.
O "
Gothic" em
HIM
está presente mas deixou de ser o principal "ambiente" presente nos
álbuns e por outro lado a sonoridade, sendo pesada, é-o doutra forma,
mais suja e não de forma tão agressiva e literalmente distorcida como o
era no início.
Nenhuma destas considerações belisca a excelente
qualidade deste álbum. A banda mudou e essa mudança deu grandes frutos,
como é o caso de
Venus Doom.
Conclusão
Formados já no longínquo ano de 1991(!), os
HIM dão uma prova cabal de reinvenção e ambição musical com
Venus Doom, um álbum cheio de grandes surpresas, talvez até mais para aqueles familiarizados com o anterior trabalho da banda.
A
sonoridade não é a mesma do início da carreira e alguns (ou algumas...)
poderão não compreender a profundidade e a evolução da banda, mas é
inegável que a qualidade é a mesma, simplesmente "aplicada" de outra
forma e com a maturação que o tempo sempre permite às grandes bandas.
PhiLiz