Corpus Christii - Rising
Introdução
Corpus Christii é hoje uma das maiores entidades do
BM a nível mundial e em Portugal a banda de
NH é provavelmente a referência máxima do género.
Para este "estatuto" muito contribuem as três fazes da trilogia que
Rising finaliza, que representam segundo
NH: a devastação total (
Tormented Belief), seguindo-se a raiva e a auto-descoberta (
The Torment Continues), finalizando-se com a ascensão e subsequente descoberta da luz nesta última proposta da banda.
Os registos de 2003 e 2005, de enorme qualidade, deram ao projecto de
NH
ainda mais notoriedade ao mesmo tempo que mostravam os passos para um
tipo de sonoridade mais trabalhada e distinta daquela seguida pela
banda até então, embora o
Black Metal se apresente hoje, como em 1998 (ano de formação da banda) como característica principal de
Corpus Christii.
No entanto, o
Black Metal de
CC a partir de 2003 surge como uma criação muito pessoal do mentor da banda,
Nocturnus Horrendus.
Um misto entre melancolia musical e satanismo filosófico, numa
abordagem ao género bastante mais complexa do que a feita pela banda
anteriormente.
Nesta linha
Rising surge como uma criação ainda mais ambiciosa (musicalmente falando) com elementos sonoros novos a
CC, transportando
Rising para um nível de excelência ainda maior do que o conseguido nos dois últimos trabalhos.
Alinhamento01 - Intro
02 - Stabbed
03 - Blank Code
04 - Black Gleam Eye
05 - The Wanderer
06 - Torrents Of Sorrow
07 - Void Revelation
08 - Evasive Contempt
09 - Heavenless Bliss
10 - Untouchable Euphoria
11 - Bleak Existence
12 - Revealed Wounds
13 - Outro
Ano 2007
Editora Nightmare Productions
Faixa Favorita 12 - Revealed Wounds
Género Black Metal
País Portugal
BandaMenthor - Bateria
Nocturnus Horrendus - Baixo, Bateria, Guitarras, Voz

Review
Gravado nos
UltraSoundStudios e produzido por
Daniel Cardoso (o dono dos estúdios e antigo membro dos extintos
Sirius),
Rising apresenta-se muito bem produzido para o género.
Os
instrumentos estão bastante audíveis: as guitarras têm uma afinação
perfeita para o efeito pretendido, o baixo é perfeitamente perceptível
(um dos pontos extra do álbum), a bateria é avassaladora e o trabalho
com a voz está soberbo. Acima de tudo, tem alguma "sujidade sonora" e
não é demasiado polido para um álbum de
Black Metal o que por vezes pode colocar em causa a atmosfera geral do álbum, o que não neste caso.
Todos os instrumentos foram gravados na totalidade por
NH à excepção da bateria, gravada quase inteiramente por
Menthor dos
Epping Forest.
A este propósito é de referir o grande trabalho deste membro convidado.
A bateria apresenta-se com uma força maquinal imensa, com diversas
variações e uma execução imaculada. A produção ajuda muito a enfatizar
a brutalidade que
Menthor "empresta" a
Rising. Sem dúvida um ponto muito positivo.
O resto vem directamente da mente de
Nocturnus Horrendus.
Os riffs melancólicos, mas ao mesmo tempo dilacerantes estão
propositadamente mais destacados e são um dos maiores factores de
interesse no álbum. Com diversas mudanças e sobreposições, o trabalho
de guitarra vai de encontro à complexidade e evolução que a banda tem
tido, mas são os momentos melancólicos e genuinamente deprimentes que
dão um toque ainda mais pessoal a um trabalho pincelado pela dor e
pelos tons negros da mente humana.
Nesta mesma linha, o baixo
encontra-se bastante presente e de uma forma um tanto ou quanto
surpreendente assume-se como um elemento que para além de completar dá
uma atmosfera ainda mais distorcida e arrastada às músicas (como
acontece, por exemplo em
Stabbed).
A voz assume-se, obviamente, como o elemento que mais transmite as emoções na música de
Rising e neste ponto é preciso dar um grande destaque à excelente performance de
NH.
Variando
entre um gutural bem reconhecível, angustiantes gritos de dor e
momentos mais limpos, os vocais são um dos factores mais interessantes
do álbum.
NH expele o ódio e a misantropia através de alguns dos mais arrepiantes momentos vocais alguma vez executados sob o nome de
Corpus Christii e o álbum ganha incomensuravelmente com isso.
Mencionei anteriormente que este seria porventura o álbum (musicalmente) mais ambicioso de
Corpus Christii
e isto é algo que se compreende assim que se começa a ter uma ideia das
várias influências e dos pormenores bastante diversos que
Rising encerra.
Os riffs e ritmos mais lentos e soturnos remetem para uma atmosfera
Doom que abrilhanta e diversifica ainda mais o álbum. Neste sentido faixas como
The Wanderer ou a emocional
Revealed Wounds têm sons que vão para além do espectro do
Black Metal.
Há algumas bandas que vêm à cabeça aquando da audição do álbum como
Deathspell Omega ou
Ved Buens Ende, sobretudo devido à variedade rítmica e à atmosfera criada, mas
Corpus Christii tem uma envolvência única devido à forma como tudo se passa muito no plano pessoal, o que transparece bem para a música.
Outro factor que é facilmente reconhecível no álbum é a religiosidade que lhe está inerente.
NH denomina
Corpus Christii como uma banda de
Black Metal religioso, de cariz demarcadamente satânico. A
Intro
com o seu coro evangélico ajuda neste aspecto, mas todo o álbum remete
para este sentimento religioso. No que concerne a esta matéria alguns
momentos líricos demonstram bem que apesar de as letras estarem já
longe de algo como
All Hail... (Master Satan) a devoção a Satanás, o espalhar da sua palavra e o encontrar da verdade através do mesmo são o objectivo primordial de
NH, como visceralmente expelido em
Void Revelation:
Satan! Life for those who seek the truth!Todas
as faixas são bastante únicas e distintas (embora o sejam apenas o
suficiente para manter o interesse e não soem demasiado díspares e
desgarradas de uma linha comum) o que faz do álbum não só um conjunto
bastante coeso e sólido, mas igualmente uma fonte de grandes hinos de
Black Metal.
Neste aspecto há a destacar
Stabbed, logo a primeira faixa do álbum (a seguir à
Intro) e que deambula por entre os riffs cortantes e momentos mais atmosféricos, tudo isto com
Nocturnus Horrendus exprimir os mais desesperantes sentimentos de forma agonizante.
No momento que se segue a bateria de
Menthor tem um dos seus pontos altos.
Blank Code tem um ritmo mais rápido na maior parte do tempo, mas também é onde se pode encontrar um dos primeiros momentos em que
Nocturnus Horrendus usa uma voz mais falada, o que dá uma ideia de ritual e que resulta muito bem.
Ainda nesta toada mais tradicional encontramos
Untouchable Euphoria (com alguns elementos mais
Thrash à mistura) ou
Evasive Contempt que dão corpo à vertente mais rápida do álbum.
Os riffs tristes são enfatizados em faixas como
The Wanderer,
Torrents Of Sorrow,
Heavenless Bliss ou no momento mais emocional (e simultaneamente mais brilhante) do álbum
Revealed Wounds onde numa toada depressiva tudo flui numa corrente de pura melancolia.
Cada
faixa tem pormenores que só serão notados à medida que o álbum for
absorvido. É este outro dos grandes pontos do álbum, onde as faixas vão
ganhando de uma forma estranha nova força e nova dinâmica, seja
individualmente, seja no contexto de um álbum que devido a uma
atmosfera rica em vários elementos se torna numa autêntica surpresa, a
cada audição.
Quando totalmente absorvido, a ideia geral que
mais se retém é a expurgação de sentimentos negativos muito fortes e
vincados. O arrepiante
Outro é parte essencial disto mesmo e
mais do que algo que soe esteticamente bem, é um grito (literalmente)
libertador de tudo quanto a trilogia
Tormented encerra.
Conclusão
O mínimo que se pode dizer é que
Rising é mais um enorme passo em frente na carreira de
Corpus Christii e demonstra em especial todas as potencialidades de composição do seu mentor,
Nocturnus Horrendus. Desta vez
NH conseguiu uma obra extrema em sonoridade e complexidade, bem como cimenta a unicidade de
CC no panorama do
Black Metal mundial.
Rising
assume-se inevitavelmente como um dos melhores lançamentos de 2007
(seja em que dimensão territorial estejamos a falar), bem como uma das
mais brilhantes criações de sempre na cena
Black Metal nacional.
PhiLiz