Corpus Christii - Tormented Belief
Introdução
Quando em 2007,
Nocturnus Horrendus
finalizou a trilogia "Tormented" fechou-se um ciclo que representa
provavelmente a melhor sequência de álbuns dentro das criações feitas
no
Black Metal nacional.
Se quisermos olhar para a
evolução temático-filosófica desta mesma trilogia, podemos conceber uma
ascensão que começa na mais desesperada das agonias e vai de alguma
forma caminhando em direcção à luz do conhecimento e da perfeição (a
própria ideologia do mentor de
Corpus Christii ajuda a entender a procura por este último aspecto).
O início desta "viagem" deu-se com o mais negro e doentio álbum da trilogia:
Tormented Belief. Conforme é dito por
Nocturnus Horrendus, o álbum surge na mais conturbada altura da vida do mentor de
Corpus Christii
e dado o cariz (muito) pessoal do projecto (especialmente nesta
trilogia) é natural que todas as perturbações vividas nessa altura por
NH sejam transpostas para o álbum... em forma de dolorosas e odiosas ondas sonoras.
Tormented Belief marca igualmente uma viragem no som de
CC
(que acompanha a própria mudança de conceitos abordados), tornando o
som "melancolicamente" mais refinado (embora mantendo a agressão e
brutalidade dos trabalhos anteriores), com especial atenção à
composição dos temas de forma a conferir aos mesmos uma carga negativa
e emocional maior, factor que enriquece (bastante) a atmosfera global
do trabalho.
Alinhamento01 - Melancholy Beginning
02 - Forgotten Dead Crow
03 - My Blood In Your Hands
04 - Arising From The Ashes
05 - Devouring Your Essence
06 - Being As One With Hatred
07 - Me, The Hanged One
08 - Constant Suffering
Ano 2003
Editora Nightmare Productions
Faixa Favorita 08 - Constant Suffering
Género Black Metal
País Portugal
BandaNocturnus Horrendus - Baixo, Guitarras & Voz
Necromorbus - Bateria


Review
O cenário de mudança em
Tormented Belief começa logo a ser desenhado na própria morfologia da banda no álbum. Pela primeira vez,
Corpus Christii tem em estúdio um baterista real (substituindo a habitual "drum machine" que vinha sendo utilizada nos álbuns anteriores).
O baterista escolhido foi Necromorbus, prolífero músico da cena
Black Metal europeia e de reconhecidos (trabalhou, entre outros, com
Watain,
In Aeternum e
Funeral Mist).
Começando precisamente por este (primeiro) factor de mudança,
Necromorbus
faz um trabalho bastante competente a dar uma furiosa alma rítmica a
todo o disco. Os ganhos são por demais evidentes, sobretudo porque a
maior variedade do álbum face aos anteriores exige uma melhor
articulação entre os momentos mais rápidos e as partes mais lentas,
algo que
Necromorbus faz com bastante eficácia (vejam-se, a título de exemplo, as mudanças de ritmo em
Melancholy Beginning).
Além
do mais, um trabalho com uma abordagem tão "humana" (do ponto de vista
da exploração dos aspectos mais negativos da espécie, entenda-se), não
se compadecia com a limitação maquinal de uma "drum machine", pelo que,
além de um factor de maior interesse, era algo absolutamente necessário
para que a globalidade do álbum não sofresse um duro revés.
No entanto, apesar do bom desempenho de
Necromorbus, a principal personalidade do álbum (em toda a plenitude da afirmação) é, naturalmente,
Nocturnus Horrendus. É da mente de
NH que o álbum toma forma, se concretiza e, claro, se torna verdadeiramente interessante.
Quer
sejam os riffs melancólicos, os vocais tresloucados de sofrimento ou a
conceptualização da dor em forma de música (as letras aqui desempenham
um papel fundamental), a verdade é que
Tormented Belief sai directamente do consciente de
NH.
Não
se trata de um expurgar de polémicas, mas de algo mais (ao contrário do
que muitos dizem e disso fazem uma estúpida bandeira para criticar
CC).
Tormented Belief, pela mão de
NH
é um cruel exercício misantrópico, onde a criação artística é uma
extensão do interior do compositor. Claro que isto acontece inúmeras
vezes, em inúmeros álbuns, mas raros são as bandas que conseguem
fazê-lo de forma interessante, sem entrar no campo da
intransmissibilidade ou de cair nos clichés fáceis que são apanágio das
tentativas frustradas do relato de algo tão pessoal.
É evidente
que devido a ser um álbum tão particular, ninguém está em condições de
compreender totalmente o que é que se pretende transmitir, mas é
possível absorver a atmosfera melancólica, o ódio, a agonia e todo um
turbilhão de emoções carregadas de negatividade. Nestes aspectos pode,
de facto, haver uma identificação (ou dar-se o fenómeno contrário,
obviamente) de quem ouve o álbum e surgir um interesse redobrado pelo
trabalho. No meu caso, isto é um dos principais factores que me faz
ouvir
Tormented Belief bastantes vezes...
Claro que tudo
isto seria completamente inútil se não fosse suportado musicalmente por
um trabalho poderoso e esmagador, como nos é apresentado em
Tormented Belief.
Neste
campo, de destacar a produção, que não sendo cristalina, constrói um
ambiente claustrofóbico e perfeito para o género em questão. Nota-se
também aqui uma notória mudança em relação ao trabalho anterior da
banda.
Instrumentalmente falando há um destaque natural para as
guitarras e consequentemente para os riffs. O trabalho de guitarra do
álbum acompanha - obviamente - todo o ambiente geral do álbum, pelo que
se podem esperar riffs a transbordar de melancolia, raiva e ódio.
Não sendo um trabalho de guitarra complexo, do ponto de vista técnico (como
Rising,
por exemplo), a sobreposição de guitarras, a forma como tudo está
colocado no sítio certo de forma a tornar a experiência auditiva
(ainda) mais agonizante revelam uma das grandes virtudes deste álbum:
as qualidades de composição que são por demais evidentes em
Tormented Belief.
O clima de mudança (prefiro o termo "mudança" ao termo "evolução" em relação a
CC
devido ao carácter qualitativo que o segundo muitas vezes encerra) é
também evidente, uma vez que o surgimento de várias "camadas" de riffs
contrasta claramente com o trabalho mais directo dos álbuns anteriores.
No
entanto, e apesar de tudo, há algo que se consegue sobrepor aos
aspectos que positivamente destaquei anteriormente: a voz e a lírica de
Nocturnus Horrendus.
Claro que a compreensão (ou talvez a
assimilação individual que cada um faz) das emoções e dos estados de
espírito que os temas (e o álbum em geral) transmitem passam muito pela
leitura das letras que
NH vai soltando odiosamente durante todo o disco.
Isto
é algo que acontece em quase todos os álbuns, no entanto, neste caso (e
pela própria produção do álbum que põe em destaque a voz) torna-se em
algo único, porque não há um verdadeiro trabalho vocal da parte de
Nocturnus...
existe sim um soltar animalesco de momentos homicidas, misantrópicos,
demoníacos (e provavelmente dos demónios pessoais do vocalista...): uma
enorme dimensão de viscerais vocalizações que consubstanciam toda a
negritude adjacente a
Tormented Belief.
O trabalho vocal
é perfeitamente complementado com uma lírica que lida com uma série de
sentimentos de obscuros e perversos que vão desde assassínios, puro
ódio e a abordagem da morte como a libertação única de todo o
sofrimento.
Este último aspecto leva-nos a algo que todo o álbum
transmite (não apenas as letras): o desesperante mergulhar na agonia e
dor como única forma de existência. Não por um qualquer desejo de
auto-flagelação mental, mas porque são estas as emoções que surgem como
as mais verdadeiras.
Tal como tudo no álbum, as letras apresentam-se
num plano bastante pessoal que apesar de poder ser, à partida,
assimilado, torna a sua interpretação sempre muito relativa (ainda mais
que o habitual na maioria dos álbuns).
Ainda para mais algumas
letras são bastante alegóricas (sobretudo no que diz respeito à
expurgação homicida perpetuada pelo "narrador" das letras) o que
reforça ainda mais este aspecto.
Todo o álbum surge bastante
homogéneo nos seus aspectos mais gerais, mas encerrando a cada tema
algo de novo, o que ajuda a manter o interesse ao longo dos quase
quarenta e cinco minutos de audição.
No caso de
Melancholy Beginning
temos bastantes variações de tempo, sejam as velocidades dilacerantes
impostas pelas guitarras, ou os riffs mais lentos e melancólicos que
suportam os arrepiantes (e singulares) guturais de
NH.
Os
temas seguintes seguem a mesma linha, embora contendo sempre riffs e
variações que não são ouvidas em mais nenhum momento do álbum. Exemplo
disto são os riffs inicias de
Arising From The Ashes que são um dos destaques do álbum, ou os momentos que de alguma forma relembram
Celestia (com as devidas diferenças, claro) em
Devouring Your Essence e
Being Us One With Hatred.
Há, apesar de tudo o que já foi dito, um momento marcante em
Tormented Belief
e que mesmo que todo o brilhantismo do trabalho não fosse uma
realidade, já faria valer a pena, por si só, ouvir o álbum. Falo do meu
tema preferido de
Corpus Christii,
Constant Suffering.
O
tema é de alguma forma mais melódico e não apresenta (na maior parte do
tempo) a velocidade que o resto do trabalho tem, mas devido à
simbologia do mesmo no álbum, se compreende, aceita e depois de
absorvido, se louva. É um tema carregado de emoção... não de um
qualquer romantismo fácil, mas de sentimentos perturbados e cruelmente
odiosos... um perfeito resumo do que
Tormented Belief (e a própria banda nesta sua fase da carreira) representa... e na minha óptica o tema é paradigmático daquilo que o próprio
Black Metal deve ser.
Conclusão
Tormented Belief apresenta-se como um disco único na cena portuguesa e sobretudo porque surgiu numa fase em que o
Black Metal
já não via algo tão refrescante há já algum tempo. Mesmo à esfera
global, é uma abordagem original ao próprio género. Mas mais importante
do que isso, é um grande álbum, uma prova inegável da qualidade que
Corpus Christii atingiu, muito especialmente com fase iniciada neste mesmo trabalho.
Pessoalmente é o meu trabalho preferido de
Corpus Christii.
Porque é musicalmente um trabalho sublime, porque é um álbum perturbado
e coberto de "texturas" que me dizem muito, mas acima de tudo porque a
identificação que sinto com
Tormented Belief é enorme (os motivos por detrás da mesma não os mencionarei) e por isso mesmo, faz com que seja um trabalho essencial para mim.
Mas mesmo para quem não sinta tal identificação é uma obra sublime de
Black Metal.
PhiLiz