Samael - Ceremony Of Opposites
Introdução
Se há palavra que pode definir genérica mas precisamente a carreira de
Samael (formados em 1987), essa palavra é mutação. Não fazendo sequer uma incursão ao que foi lançado pela banda depois de
Ceremony Of Opposites
(uma vez que ai a mudança é drástica e facilmente verificável) e sendo
a análise apenas em relação aos primeiros tempos do conjunto suíço,
existe uma clara intenção de experimentar (esta característica
manteve-se e acentuou-se bastante nos anos que se seguiram a 1994)
novas coisas e expandir o universo musical do grupo com elementos
anteriormente não incorporados.
Para se perceber esta dinâmica "mutante" é preciso olhar para os dois álbuns anteriores da banda. Nada mais nada menos que
Worship Him e
Blood Ritual
de 1991 e 1992, respectivamente. Não estamos perante dois trabalhos
vulgares. Numa altura em que uma verdadeira revolução se dava a uns
bons milhares de quilómetros do território suíço (na Noruega, claro),
estes dois trabalhos tornaram-se verdadeiros clássicos do que mais
tarde se viria a chamar Segunda Vaga de
Black Metal. Expandindo o que os conterrâneos
Hellhammer e
Celtic Frost (entre outros, claro) haviam feito nos anos 80, os dois primeiros álbuns de
Samael tornaram-se verdadeiros clássicos do
Black Metal
moderno. O mais surpreendente (uma vez que são álbuns habitualmente
prezados de forma mais ou menos igualitária) é que são dois trabalhos
que em si já encerram algumas diferenças:
Worship Him tem
bastantes variações entre os tempos rápidos (seja nos riffs, seja na
bateria) e algumas passagens mais atmosféricas enquanto que
Blood Ritual
acentua a toada lenta sem nunca perder o som poderoso e ritualístico da
banda. Atendendo a este historial é possível antever mais uma mudança
em
Samael ainda que sempre dentro do prisma do
Black Metal (isto falando apenas o que foi feito imediatamente a seguir com
Ceremony Of Opposites, entenda-se).
Na verdade,
Ceremony Of Opposites é porventura o último trabalho da banda associado ao que se pode de alguma forma chamar
Black Metal "tradicional". Seguindo as pisadas de constante mudança sonora de outra (já mencionada) banda suíça, os seminais
Celtic Frost (embora por caminhos totalmente diferentes dos seguidos pela banda de
Tom G. Warrior), os
Samael enveredaram, após
Ceremony Of Opposites, por caminhos mais ligados ao som
Industrial
(direcção que de alguma forma pode ser vislumbrada neste trabalho de
1994) e maximizaram ainda mais o carácter experimental e ecléctico da
banda.
Este facto (ser o último trabalho mais ligado ao
BM de
Samael)
não é por si só razão suficiente para uma atenção especial ao álbum
(essas serão descritas na análise ao álbum) mas do ponto de vista do
exame evolutivo de uma das bandas pioneiras da Segunda Vaga de
Black Metal
(ainda antes de alguns dos grandes lançamentos da cena norueguesa)
torna-se essencial compreender este trabalho da banda em toda a sua
plenitude.
Alinhamento01 - Black Trip
02 - Celebration Of The Fourth
03 - Son Of Earth
04 - 'Till We Meet Again
05 - Mask Of The Red Death
06 - Baphomet's Throne
07 - Flagellation
08 - Crown
09 - To Our Martyrs
10 - Ceremony Of Opposites
Ano 1994
Editora Century Media
Faixa Favorita 04 - 'Till We Meet Again
Género Black Metal
País Suiça
BandaMasmiseim - Baixo
Rodolphe H. - Teclado
Vorphalack - Guitarra, Voz
Xytras (Christophe Mermod) - Bateria

Review
Aquando de um contacto inicial com
Ceremony Of Opposites há a constatação de duas ideias antagónicas: por um lado é indubitavelmente um álbum de
Black Metal,
mas por outro lado estamos perante uma execução dentro do estilo "sui
generis" e que foge a muito dos "padrões instituídos" para se praticar
bom
BM. Um "je ne sais quoi" de diferente em relação ao que costuma ser o som mais comum dentro do género.
Penso
que isto pode ser explicado por diversos factores mas em termos gerais
percebe-se uma aproximação a alguns géneros fora do
Black Metal como seja o
Industrial. Obviamente que isto não quer dizer que estejamos perante um trabalho de
Industrial Black,
longe disso. Fazer tal observação seria incorrer num erro de observação
(ou de audição se assim for preferido) por exagero. O que se nota é a
utilização subtil de alguns elementos que lhe dão uma roupagem
diferente dentro do
BM mas que não o afastam da linha condutora do género. Em momento algum se ouve algo que não seja BM em
Ceremony Of Opposites.
Refiro-me
sobretudo à forma como a bateria e os teclados (que muitas vezes
utilizam samples) estão misturados e produzidos ou a forma como um dos
elementos mais fortes do álbum (os riffs e todo o trabalho de guitarra
em geral) é executado, não recorrendo ao habitual tremolo picking mas
sim a riffs arrastados e não raras vezes lentos. Por último, em relação
a este aspecto do trabalho isto há que destacar também a produção que
confere um efeito maquinal e "industrializado" às músicas.
Para
sintetizar o porquê deste efeito de estranheza pode-se dizer que a
banda arranjou uma maneira interessante e eficaz de integrar diferentes
influências sem no entanto por em causa a essência que, por exemplo,
Worship Him e
Blood Ritual encerram.
Referi a bateria como um dos motores da forma peculiar como o álbum se movimenta dentro do
BM mas é muito mais que isso. A forma infernal como
Xytras
(enorme baterista) se apresenta é um dos grandes destaques do álbum. O
poder que emana da percussão do álbum é enorme e por si só digno de
registo mas o mais fantástico é a maneira como a bateria soa grandiosa
e energética mesmo sendo maioritariamente executada em tempos médios.
Num dos clássicos saídos deste álbum -
Baphomet's Throne
- a intensidade e energia que são imensas mas o tempo nunca acelera
muito. No entanto, a bateria (juntamente com os teclados) dá uma
grandiosidade e acutilância que fazem a faixa sobressair.
Além de eficaz e poderoso, o trabalho de
Xytras
caracteriza-se pela sua complexidade e variação. Os tempos são
geralmente lentos (sobretudo se comparados com algumas propostas dentro
do
Black Metal) mas existem momentos mais rápidos como nalgumas secções de
Flagellation
e no geral o trabalho é sempre bastante variado. Desde os ocasionais
(ainda que raros) blast beats, até aos tempos mais lentos (que
acompanham os riffs igualmente menos acelerados como superiormente
demonstrado em
'Till We Meet Again) passando pelas introduções
em jeito de marcha imperial (como na faixa-título), o trabalho é
simplesmente perfeito para criar uma atmosfera quase épica mas acima de
tudo muito poderosa e... cerimonial.
A complementar na perfeição
o que é criado pela bateria estão os teclados. Neste departamento há
uma combinação inteligente entre o uso de teclados sombrios e as
samples que durante todo o trabalho se vão ouvindo com alguma
frequência. Seja a enfatizar a vibração misteriosa criada pela execução
relativamente lenta dos outros instrumentos ou simplesmente a adicionar
novas atmosferas aos temas, os teclados têm um papel bastante evidente
e importante na condução das músicas.
Não são usados com enorme frequência (até porque um exagero ou um mau uso deste elemento pode tornar-se fatal para um álbum de
BM
como já foi muitas vezes provado) mas aparecem quase sempre em cada
faixa. A incursão já referida por caminhos mais virados para o
Industrial tem a sua consubstanciação nos teclados e sobretudo no uso de samples. Faixas como
Flagellation
perderiam todo o seu ambiente mecanizado se os teclados estivessem
ausentes ou porventura usados doutra maneira. Da mesma forma, o uso de
samples insere subtilmente (aliás, os teclados resultam bem
precisamente porque são usados cirurgicamente) outras texturas a
momentos mais atmosféricos como é o caso da última faixa
Ceremony Of Opposites.
Um
ponto comum a todo o álbum, mas que em relação ao uso dos teclados se
torna ainda mais evidente, é a forma como a composição está elaborada e
cuidada. Nada parece ser prolongado por demasiado tempo ou acabar cedo
demais. Veja-se, para exemplificar este aspecto, a quinta faixa
Mask Of The Red Death
onde o acompanhamento dos teclados aos riffs é evidente e como
inteligentemente toma conta da música antes de se tornar, de novo, numa
parte que enfatiza o trabalho de guitarra e baixo... tudo pensado e
executado ao pormenor para não parecer demasiado forçado ou enfadonho.
Como
não poderia deixar de ser esta última característica que descrevi
estende-se ao que é provavelmente o elemento mais importante na
condução instrumental do álbum: a guitarra de
Vorphalack. Os
riffs de guitarra que dominam o álbum são variados, apresentam-se
sempre bastante originais e... têm um groove fenomenal. Apesar de não
ser um termo conotado com o
Black Metal (de todo) não há outra forma de denominar aquilo que invade todo o álbum e compreende-se precisamente porque este não é um
Worship Him. Ouça-se o início de
Black Trip
e percebe-se que há um groove muito próprio em todo o trabalho de
guitarra. Escusado será dizer que não é um som comparável ao que
geralmente mais está associado com o termo groove...
Na realidade, o
que temos neste campo é um som muito próprio criado pelas guitarras
brutalmente distorcidas que inundam o álbum. Vamos desde as progressões
que criam uma atmosfera densa e negra até aos momentos mais melódicos
nalguns refrões (a faixa
Son Of Earth é paradigmática deste aspecto) ou simplesmente aos riffs destruidores que acompanham a toada mais maquinal da secção rítmica.
Embora os riffs sejam claramente compostos no horizonte do
Black Metal, é possível reconhecer algumas influências de outras formas extremas de
Metal como o
Death Metal
nomeadamente quando se ouvem alguns momentos mais melódicos. Não é algo
que seja muito evidente porque a produção, distorção e colocação dos
riffs é muito ligada ao
BM mas o tal groove que se ouve é muitas vezes devido a estes sons mais próximos do
DM.
Para
completar todo este panorama há que salientar um dos aspectos que torna
este trabalho tão fluído e bem construído: o quão "catchy" é todo o
trabalho de guitarra. Para além do som de guitarra ser facilmente
relembrado, muitos dos riffs são memoráveis e resultam na perfeição.
Assim se compreende que tenham saído deste álbum muitos clássicos da
banda como
Baphomet's Throne,
Black Trip ou
Son Of Earth.
A
acompanhar a guitarra temos o baixo que apresenta muitas
características que se podem verificar na guitarra. A distorção confere
à execução de
Masmiseim uma enorme relevância, seja a
acompanhar as guitarras nos momentos mais pesados, seja a preencher o
som de forma ainda mais intensa.
No entanto, o baixo (sempre
perfeitamente audível) faz mais do que simplesmente "completar" o que
vai sendo feito pelo resto dos instrumentos como se pode notar em
Mask Of The Red Death. Embora pontuais existem momentos em que
Masmiseim se destaca mais e torna o ataque sonoro ainda mais acutilante e variado.
Para agregar toda esta potência temos, claro, a voz de
Vorphalack. Num gutural poderoso e que dá o toque final a toda a energia do instrumental,
Vorphalack espalha no álbum uma agressão genuína e acaba por se tornar num dos elementos que mais se destaca.
Sempre num registo muito semelhante, a voz de
Vorphalack é profunda mas mantém a rispidez que caracteriza os vocais do
Black Metal.
A forma como a voz consegue ser preponderante face a um registo
instrumental tão poderoso (que requer uma voz igualmente poderosa para
resultar bem) é um mérito da produção mas também da forma como
Vorphalack
aborda a questão da colocação de voz. Mais do que uma vocalização
musical temos um registo quase recitado em que o vocalista vai
declamando as (excelentes) letras como se de ensinamentos se tratassem.
Isto resulta muito bem: quer do ponto de vista musical pela forma como
se conjuga com tudo resto, quer pela forma como se integra com a
idiossincrasia das próprias letras. Cria-se assim uma atmosfera que
está em consonância com o nome do álbum: uma verdadeira cerimónia.
Em
relação à parte lírica esta é na maior parte das vezes excelente. Digo
na maior parte das vezes e não sempre porque existem (muito poucos)
momentos que caem demasiado nos clichés ou não resultam porque a
linguagem agressiva se torna demasiado absurda.
Son Of Earth ou
To Our Martyrs
sofrem deste mal, não obstante a primeira ser uma das melhores faixas
do álbum. Contudo, estes pequenos "acidentes" não devem ofuscar todo o
restante conteúdo lírico que é de elevada qualidade. As letras que
lidam com os temas religiosos do ponto de vista filosófico fazem-no de
uma perspectiva mais ateísta que nos álbuns anteriores (
Worship Him
é auto-esclarecedor) embora ainda se verifiquem referências mais
viradas para o Satanismo (apenas na sua vertente mais teísta,
ressalve-se). Algumas temáticas como o sofrimento pessoal (aqui visto
de uma forma guerreira e não como forma de auto-comiseração) também são
abordadas de forma inteligente como se pode verificar em
Crown: "
Into pain, I exist/And if my brain is numbed/The thorn in my flesh/Can overcome apathy".
Todos
os elementos descritos anteriormente acabam por estar em cada uma das
faixas. No entanto, é raro as "peças" estarem dispostas da mesma
maneira o que providencia uma dinâmica que permite ao álbum uma
longevidade maior sem se tornar demasiado formatado.
A produção
também ajuda na forma como o álbum não se esgota: sendo (a produção)
bastante polida ajuda a ir descobrindo novos detalhes em cada faixa e
torna o álbum "agradável" (com as ressalvas em relação ao gosto de cada
um pela banda e género em questão) de ouvir ainda para mais quando este
tem verdadeiros hinos de
BM como:
Black Trip,
Baphomet's Throne,
'Till We Meet Again (melhor faixa do álbum) ou a faixa-título cujos teclados finais encerram na perfeição esta "cerimónia".
Conclusão
Os
Samael nunca foram uma banda convencional. Mesmo nos tempos de
Worship Him ou
Blood Ritual os ritmos eram mais contidos e dava-se mais ênfase à atmosfera e negritude imprimidas nas faixas. Com
Ceremony Of Opposites
os suíços dão um passo em frente na exploração de novas texturas embora
nesta proposta de 1994 ainda tenham muito do que os fez inicialmente
destacar-se.
Ceremony Of Opposites é um dos melhores trabalhos de
BM saídos de 1994 (o melhor será provavelmente um tal de
De Mysteriis Dom Sathanas), mas acima de tudo uma forte proposta de
BM
(a última completamente associada ao género por parte da banda) cheia
de inteligência e intencionalidade que "usa" elementos estranhos ao
Black Metal para engrandecer o género.
PhiLiz