Type O Negative - October Rust
Introdução
A unicidade que caracteriza e define
Type O Negative
(seja no âmbito musical ou fora dele) faz com que a exploração do
universo da banda seja uma tarefa hercúlea sobretudo na gestão das
inúmeras sensibilidades do colectivo americano (particularmente a
humorística). Uma pequena escorregadela e o ridículo toma conta da
situação... e quanto a isto, um pequeno vislumbre na personalidade da
banda (e em especial do gigante
Peter Ratajczyk, mundialmente conhecido como
Peter Steele)
permite compreender a razão pela qual tantos mal-entendidos (quase
sempre ridículos) surgiram (e ainda surgem) em relação à banda de
Brooklyn.
A banda é conhecida por incluir nas letras (e não só)
doses industriais de humor negro, referências em relação a algumas
polémicas que os envolvem (geralmente de forma humorística mas bastante
incisiva) e pela corrosibilidade de várias afirmações. Assim, a ironia
e o sarcasmo são peças fundamentais no repertório da banda (sejam em
letras ou noutro tipo de contactos com o público) e como tal a falta de
cuidado (sobretudo quando a banda se tornou mais conhecida) na
interpretação de alguns aspectos de Type O Negative (ou mesmo na
própria atitude por detrás da banda) faz com que surjam muitas
situações hilariantes dada a falta de "perspicácia" de alguns
"intérpretes" do universo de
TON... claro que isto é capitalizado pela banda o que geralmente só faz aumentar, ainda mais, o absurdo de tais interpretações.
Paradigmático de tudo o que disse anteriormente são os primeiros anos de
Type O Negative e estende-se, no caso de
Steele, até a
Carnivore (banda de
Thrash Metal/
Crossover em que o vocalista/baixista esteve antes de
Type O Negative). O uso de léxico associado a ideologias nazis na faixa
Der Untermensch de
Slow, Deep And Hard
(ainda que de forma figurada uma vez que a letra denota uma visão
geralmente partilhada pela direita conservadora americana no que
concerne ao "Welfare State" e não se refere ao ideal racial),
declarações incendiárias (ainda em ligação com a música mencionada), acusações de
machismo (o facto do primeiro álbum retratar a traição de uma namorada
de
Peter Steele de forma bastante agressiva - ainda que
humorística - levou a acusações de Misoginia) e diversos episódios que
vão desde o surreal ao imensamente cómico. Um deles envolve o segundo
álbum da banda, um falso álbum ao vivo em que a banda adicionou efeitos
para dar a sensação de que tinha sido gravado ao vivo, sendo que
existem alguns cânticos bastante desrespeitosos para com a banda como
"You suck! You suck!" propositadamente adicionados... para efeitos
burlescos, claro. Igualmente a capa segue a mesma linha de humor com a
imagem extremamente próxima do ânus do vocalista/baixista,
Peter Steele... dai o nome do álbum:
The Origin Of The Feces (Not Live At Brighton Beach).
Claro que tudo isto foi prontamente aproveitado pela banda e em diversos campos. Em 1993 a banda lança o seminal
Bloody Kisses que lança definitivamente
TON para o mainstream. O sucesso de temas como
Black No. 1 (Little Miss Scare-All) (satírica perfeita a vários estereótipos da cultura gótica) e
Christian Woman (a presumível história de uma freira com um peculiar tipo de "desejos") levou a banda à ribalta (até um pouco fora do mundo
Metal)
e deu à Roadrunner Records os seus primeiros discos de ouro e platina.
Juntamente com estes temas estavam músicas com o tradicional humor da
banda:
Kill All The White People e
We Hate Everyone eram caricaturas de todas as controvérsias, nomeadamente aquelas em que eram acusados de serem racistas.
Bloody Kisses,
no entanto, foi importante - acima de qualquer outra coisa que possa
surgir - por ter representado uma demarcação sonora evidente do passado
da banda. O primeiro trabalho de estúdio de
TON já tem alguns elementos diferentes do tradicional som de
Carnivore (embora inicialmente fosse suposto ser um álbum de
Carnivore) com mais inclusões nos terrenos do
Doom (embora, de novo,
Carnivore também tivesse passagens mais arrastadas), mas foi na proposta de 1993 que surgiu o som característico do
Gothic Metal de
Type O Negative, o que representou um avanço considerável no género. Tirando a mencionadas
Kill All The White People e
We Hate Everyone (que são tendencialmente mais viradas para o
Thrash e
Punk), o resto do álbum é muito mais semelhante à obra aqui em questão,
October Rust.
Assim, além de uma confirmação inegável da direcção da banda em relação ao
Gothic Metal, o terceiro álbum de originais (não contando a paródia de
The Origin Of The Feces...) representa o paradigma do
Gothic Metal
moderno (apesar de ter muito mais para oferecer que apenas o
tradicional do estilo) e mais um importante momento num género cuja
fundação e delimitação estética muito deve aos desgraçados vindos de
Brooklyn.
Alinhamento01 - Bad Ground
02 - Intro (Untitled)
03 - Love You To Death
04 - Be My Druidess
05 - Green Man
06 - Red Water (Christmas Mourning)
07 - My Girlfriend's Girlfriend
08 - Die With Me
09 - Burnt Flowers Fallen
10 - In Praise Of Bacchus
11 - Cinnamon Girl
12
- The Glorious Liberation Of The People's Technocratic Republic Of
Vinland By The Combined Forces Of The United Territories Of Europa
13 - Wolf Moon [Including Zoanthropic Paranoia]
14 - Haunted
15 - Outro (Untitled)
Ano 1996
Editora Roadrunner Records
Faixa Favorita 08 - Die With Me
Género Gothic Metal
País EUA
BandaJohnny Kelly – Bateria*
Josh Silver – Teclado
Kenny Hickey – Guitarra
Peter Steele (Peter Ratajczyk) – Voz, Baixo
*Nota: Apesar de ser creditado como no álbum, toda a bateria do álbum foi programada.

Review
Numa visão periférica,
October Rust apresenta-se como um perfeito e modelar álbum dentro do que é o
Gothic Metal. O referido género "sofre" uma influência enorme de
TON,
seja a nível directo (para diversas bandas que seguiram o paradigma
criado), seja na criação de uma série de características que ou não
existiam anteriormente (e aqui podemos definir
Bloody Kisses como o início do som "típico" de
Type O Negative, pelo menos no que ao
Gothic Metal diz respeito) ou não tinham a mesma desenvoltura que a banda de
Type O Negative lhes deu.
No
entanto, o trabalho não se confina a ser um modelo de um género
específico (apesar de representar esse papel na perfeição, como já foi
dito). Isto acontece por dois motivos: em primeiro lugar devido às
inúmeras influências externas que a banda ainda denota nalguns momentos
e ainda que as mudanças sejam mínimas (muito menos bruscas que no álbum
anterior) há incursões noutros subgéneros (quando o som se torna mais
lento e pesado há uma clara vibração mais ligada ao
Doom Metal e ao contrário quando existem momentos mais virados para o
Gothic Rock nas músicas mais acessíveis como o clássico
My Girlfriend's Girlfriend);
em segundo lugar, porque a própria identidade da banda é bastante única
e transcende em vários planos (especialmente o lírico) o próprio género
em que a banda mais se insere. Já para não falar na qualidade
intrínseca do trabalho que o torna um álbum essencial de
Goth Metal,
não apenas mais um entre muitos ou numa situação em que é valorizado
puramente pelo facto de ter surgido pelas mãos de uma banda pioneira no
mencionado género.
Percebe-se logo aos primeiros segundos do
álbum (literalmente) que a banda tem uma forma de estar (na música em
geral) bastante própria e "característica", nomeadamente no que ao
humor diz respeito: a primeira faixa (
Bad Ground) são quase
quarenta segundos de ruído que dá a sensação do CD estar riscado o que
fez com que algumas pessoas tentassem devolver o CD sem perceber que
era suposto ser assim devido à partida da banda... É de pensar que a
seguir a este momento a banda iria começar a levar as coisas mais "a
sério", no entanto essa assumpção logo se mostra errada já que na
segunda faixa (que não tem título) temos a banda a gozar com a partida
anterior, a apresentar os membros (
Peter,
Johnny,
Kenny e
Josh)
e depois a agradecerem o facto de o ouvinte ter comprado o álbum. Na
mesma linha, a última faixa (também sem título) tem o
vocalista/baixista
Peter Steele a desejar que a audição não tenha sido demasiado desapontante ("I hope it wasn't too disappointing")...
O
resto do álbum é mais "limpo" destes momentos (entenda-se que isto não
se refere ao humor negro que está, felizmente, sempre presente) se bem
que ainda há referência a uma das paródias mais conhecidas da banda,
"People's Technocratic Republic Of Vinnland", uma área imaginária
algures entre o Canadá e os EUA (na verdade no nome vem de Vinland,
nome dado pelos Vikings a uma zona inserida no que hoje é o Canadá) de
onde a banda clama ser e cujo presidente é...
Peter Steele. A faixa com o pomposo nome de
The
Glorious Liberation Of The People's Technocratic Republic Of Vinnland
By The Combined Forces Of The United Territories Of Europa é pouco mais de um minuto a retratar a "libertação" dessa república imaginária com sons bélicos em forma de marcha militar.
Contundo,
não se pense que o tom geral do álbum é o divertimento leviano. Bem
pelo contrário, o álbum tem vários momentos de negatividade que cobrem
estados como a depressão, o luto ou a suave melancolia, sendo que este
último aspecto que poderá muito bem ser o pano de fundo dominante do
trabalho na sua tentativa de retratar os dias de prostração que invadem
o Outono. Muita desta flutuação de sentimentos e estados de espírito é
responsabilidade dos teclados quase omnipresentes de
Josh Silver
que são uma das principais linhas condutoras de todo o trabalho, com um
som bastante distinto e equilibrado entre os vários ambientes criados
pelo teclado.
Silver varia entre uma série de técnicas que não
só conferem ao álbum uma riqueza maior, como provam que se está na
presença de um dos mais talentosos e criativos teclistas dentro do
género... e não me refiro apenas ao
Gothic Metal em particular.
Alguns dos sons mais reconhecíveis de
October Rust são as introduções das mais conhecidas faixas do álbum (muito por causa do trabalho de sintetizadores que contém) como
My Girlfriend's Girlfriend ou a tremenda balada
Love You To Death,
ambas com um espantoso trabalho de teclados seja pelo som único que
têm, seja pela predominância que têm na música. No caso de
My Girlfriend's Girlfriend (uma música sobre um afortunado triângulo amoroso em que o vocalista/baixista
Peter Steele se vê envolvido), são os teclados muito ao estilo da segunda do
Gothic Rock que dão à música um apelativo muito especial e tornam a música numa das mais conhecidas músicas de
TON.
A
par das introduções e dos solos, temos o lado mais atmosférico dos
teclados, que geralmente coincide com as alturas em que a banda soa
mais próxima do
Doom (como acontece na épica
Haunted) o que incute uma certa soturnidade às faixas. Além da referida
Haunted (que é uma referência óbvia), a hilariante frase do refrão de
Be My Druidess é acompanhada de alguns dos mais sinistros teclados de todo o álbum e o mesmo se pode dizer para a penosamente realista
Red Water (Christmas Mourning).
Além destes apontamentos, é de referir que muita da riqueza do álbum a longo prazo se deve à mestria de
Silver
mesmo nos momentos em que os teclados não são predominantes ou nem
sequer aparecem em pano de fundo. Existem subtis incursões dos teclados
em momentos chave do álbum que enfatizam determinado som (muitas vezes
até outros elementos como a guitarra ou a voz de
Steele) e que são instrumentais para o sentimento que a banda pretende recriar. Depois de tudo isto,
Josh Silver também foi o responsável pela programação da bateria (bem como co-produziu o álbum com
Peter Steele) que, ao contrário do que os créditos dizem atribuindo-a ao baterista
Johnny Kelly,
foram inteiramente programados em estúdio. Em relação a este aspecto
não há muito a dizer, não só porque quase não se nota que a bateria é
programada (que é o que interessa, já que ninguém estaria à espera de
brilhantismo com programação da bateria) mas também porque é um
elemento que não grande importância no álbum (provavelmente de forma
propositada devido ao que foi referido).
Ainda no campo da
produção é de destacar a forma como todo o álbum está bem construído no
que diz respeito ao balanceamento do binómio peso/melodia. Apesar de os
teclados serem de uma clara importância (e a forma como são usados dão
um aspecto mais melodioso e calmo a todo o álbum), o peso das guitarras
e do baixo é sempre considerável. Além de tudo soar de forma cristalina
(outra coisa não seria de esperar e exigir), tudo tem o seu espaço e
tempo para surgir dentro do som, o que é muito positivo dado que
sublinha uma das principais qualidades da banda, isto é, a sua
qualidade na composição das músicas, nomeadamente nas mais longas como
a minha preferida
Die With Me onde há uma exaustiva exposição de tudo o que a banda tem de melhor para oferecer.
A produção também mantém o som característico de
TON - e que de alguma forma foi cravado definitivamente em
Bloody Kisses
- embora se notem algumas diferenças em relação ao anterior trabalho.
Este aspecto tem a sua materialização sobretudo na forma como a
guitarra actua.
Kenny continua a desempenhar um papel
fundamental no álbum, mas o som da guitarra é mais límpido e tem
algumas variações que não eram tão evidentes (ou não existiam de todo)
no álbum que precedeu
October Rust.
A distorção de guitarra típica de
Type O Negative
(e que influenciou incontáveis bandas...) está presente mas acaba por
ser ligeiramente mais suave. Isto deve-se principalmente ao da
distorção ser mais ouvida nos momentos mais arrastados e lentos, o que
não acontece assim tantas vezes neste álbum. No geral, as músicas
também não são muito pesadas (embora esta constatação só sirva em
análise com os álbuns passados da banda, uma vez que é um álbum
bastante pesado para o que é normal dentro do
Gothic Metal) e daí esta pequena atenuante no som da guitarra. No entanto, isto não quer dizer que
Kenny
não esteja a altura dos acontecimentos. Algo que é curioso notar é o
dinamismo da guitarra que assenta que nem uma luva no som melodicamente
poderoso da banda: a guitarra pode, por um lado soar suave e gentil em
faixas como
Love You To Death ou
Die With Me e por outro lado soar obscura e pesada em momentos como
Red Water (Christmas Mourning) ou
Wolf Moon [Including Zoanthropic Paranoia]. Da mesma forma, músicas como
My Girlfriend's Girlfriend ou
Cinnamon Girl (um original de Neil Young sublimemente adoptado ao estilo de
Type O Negative), não seriam as mesmas sem os contagiantes riffs saídos dos dedos de
Kenny.
O outro representante do campo das cordas é nada mais nada menos que
Peter Steele. O membro mais reconhecido da banda tem, naturalmente, um enorme destaque em
October Rust. Falando primeiro no seu desempenho como baixista, o que se encontra no álbum é uma tremenda performance de
Steele, que ajuda em muito a definir o som profundo e grandioso do álbum.
Steele
toca com bastante força e energia o que lhe dá um estilo único de
execução, seja em que prima musical esteja inserido (o seu trabalho com
Carnivore é exemplo desta multiplicidade). Adicionando a isto o facto do baixo ser um elemento com bastante importância no som de
TON (e na própria caracterização do mesmo), dá para perceber que
Steele é bastante mais do que a face de
Type O Negative. É igualmente notável a forma como
Steele
vai variando o trabalho e imprimindo diferentes tons e texturas nas
músicas virtude do seu papel enquanto baixista. Se por um lado temos
belas melodias como na balada
Green Man, por outro lado temos um trabalho de outra ordem completamente diferente em
Burnt Flowers Fallen em que na maior parte do tempo o som é mais acelerado.
Mais do que o destaque nalgum momento em particular (e aqui nem temos um momento como
Black Nº1...), o distinto som do baixo de
Peter Steele é um bom resumo do que
October Rust
representa no cômputo geral: refrescante (muito raramente vemos um
baixo com esta importância dentro do género... e aqui refiro-me ao
género alargado de
TON) e imponente nos seus melhores momentos.
Falando
em imponência, poucos serão os adjectivos que descrevam melhor que
imponente a outra parte da contribuição (mais reconhecível, claro) de
Steele no álbum. O álbum é invariavelmente marcado pelos vocais graves (muito graves) e poderosos do gigante vocalista de
TON.
Porventura o som mais distinto do trabalho (sem desprimor ou relegação
para um plano de irrelevância de tudo o resto) é a voz de
Steele
e isto muito se deve à forma como a voz se consegue destacar de tudo o
resto devido ao timbre único do vocalista, sem nunca destruir a coesão
das músicas. Isto é particularmente evidente em momentos menos pesados
em que a voz de
Steele ainda se consegue encaixar de forma perfeita (exemplo paradigmático disto é a já referenciada
Cinnamon Girl). No entanto, não se restringe ao descrito até agora: a performance teatral de
Steele
vai variando entre os graves pronunciados e autênticos uivos que
acentuam o lado mais negro de algumas das músicas (e que acaba por ser
o sentimento mais predominante do álbum). A excelente balada
Love You To Death
tem simultaneamente alguns dos graves mais profundos do álbum e alguns
dos melhores momentos do timbre mais "vampírico" (que a pronúncia
característica do vocalista também acentua) de
Steele. Momentos memoráveis como os que surgem no meio de
Die With Me não parecem atingíveis (acima de tudo pela unicidade do timbre) por outro vocalista que não
Peter Steele.
Tão importante quanto a qualidade vocal de
Steele
é a qualidade lírica (departamento também a cargo do vocalista) e neste
aspecto poderemos dizer que as duas estão a par em termos qualitativos.
As letras variam entre temas tão distintos como o amor, melancolia e...
erotismo florestal ou o trabalho de um operador num parque público de
Nova Iorque. Claro que estes dois últimos temas são extremamente
literais mas acabam por ser a prova de como
Steele consegue
atingir simbiose perfeita entre assuntos mais solenes e doses de humor
(negro, preferencialmente) consideráveis. Momentos como o refrão de
Be My Druidess mostram bem o contraste entre a solenidade da música (incluindo a voz) e as letras. Numa altura bastante
Doom e tenebrosa eis que surge:
I'll do anything
To make you cum...No
entanto, aliado a este momento, nesta mesma música, temos um dos
elementos que mais vão surgindo nas letras: o erotismo e a devoção à
figura feminina. Um contraste acentuado se olharmos para o primeiro
trabalho da banda, mas que ganhou grande relevância em
October Rust. Além da mencionada música, baladas como (não tanto por o serem, mas sobretudo pelas letras) como
Love You To Death ou
Die With Me mostram igualmente esta nova abordagem. A figura feminina é, aliás, a grande fonte de inspiração de
Steele
para a componente lírica do trabalho visto que, das mais variadas
formas (mais sérias ou mais humorísticas), a temática vai sempre
surgindo e devido às desventuras de
Steele com antigas paixões (aliás, o álbum é dedicado à ex-namorada
Elizabeth que também surge no vídeo de
Love You To Death) se torna no elemento que mais provoca e inspira o sentimento melancólico que percorre todo o álbum.
É verdade que as letras centram-se fundamentalmente na temática já enunciada, mas temos ainda músicas muito mais fúnebres como
Red Water (Christmas Mourning) que descreve o sentimento de perder um ente querido.
Steele aborda a questão de forma quase "infantil", mas de forma brutalmente real e quotidiana:
My tables been set for but seven,
just last year I dined with eleven.Da mesma forma, que quase surge inconscientemente e com uma leve ponta de humor, surge a letra existencialista de
Green Man (o nome é referência directa à cor dos uniformes usados por
Peter Steele
quando trabalhava nos parques públicos de Nova Iorque), que acaba por
resumir um pouco todo o conjunto de emoções melancólicas transmitidas
pela música e letras do álbum, sendo simultaneamente a melhor letra do
álbum:
Sol in prime sweet summertime,
Cast shadows of doubt on my face.
A midday sun, its caustic hues,
Refracting within the still lake.Sendo
um álbum com uma coesão e compatibilidade (características que não
equivalem a repetição ou aborrecimento) e sendo o sentimento geral
maior do que a soma das (excelentes) partes que o constituem, torna-se
complicado destacar algum momento. Porventura músicas como
Love You To Death,
Green Man e
Wolf Moon (Including Zoanthropic Paranoia), pela forma como estão notavelmente compostas, surgem como alguns dos temas mais representativos da majestosidade de
October Rust, mas são insuficientes para perceber a qualidade do álbum como um todo. Mesmo uma referência à arrepiante
Die With Me
(que pessoalmente considero o melhor momento do álbum) seria injusta se
não enquadrada com tudo o que o trabalho representa e atinge...
Conclusão
Em
October Rust
as influências externas foram bastante mais deixadas de lado (pelo
menos directamente) e caminhou-se numa direcção mais homogénea. Não
querendo com isto dizer que a diversidade vincada que pautava os
trabalhos anteriores era um factor negativo (muito pelo contrário), a
direcção mais clara do álbum beneficia o resultado final sem o tornar
excessivamente formulado ou previsível.
October Rust surge, ironicamente, como um momento de definição para
Type O Negative.
Ironicamente porque sendo uma obra de retracto emocional de um conceito
específico, abrange sensibilidades que não costumam estar associadas a
momentos de segurança (mesmo para a definição do som de uma banda). É
talvez este sentimento de vulnerabilidade que percorre a obra em tons
de melancolia que a tornam - juntamente com a enorme qualidade de
execução - tão apelativa e essencial (um clássico pode-se até dizer,
alargando o sentido do termo) dentro do estilo em que se insere.
PhiLiz